Chegando aos 60

Já vivi 21 mil dias. A caminho dos 60, me pego com muitas idades – com 5, quando devoro, sôfrega, um chocolate; com 15, quando estremeço diante de um homem que me chama a atenção; com 30, quando em atividade física; com 40, quando imagino quantas vidas ainda posso viver; com 70, quando me inquieto com o neto que ainda não veio.

Não gosto muito de declarar que estou chegando aos 60 – o que não se faz por uma boa crônica (ou, pelo menos, por uma boa ideia de crônica)? O cronista empresta a si mesmo à crônica, fere a pele na tentativa de encontrar o que de mais verdadeiro possa compartilhar com a alteridade. De um modo límpido e leve.

Chego aos 60 como quem se aproxima da nascente do rio que me trouxe aqui. Como diz meu amigo Severino Francisco, daqui pra frente não há tempo para perder tempo – há que se fazer o essencial.

Chegando aos 60, encontrei Walt Whitman. Já não era sem tempo!

“Dentro de mim a latitude se alarga, a longitude se alonga, Ásia, África, Europa, estão para leste – América está provida no oeste. E atando a saliência dos ventos da terra, o quente equador.

Curiosamente para o norte e para o sul viram-se as pontas dos eixos. Dentro de mim está o dia mais longo, o sol gira em anéis oblíquos e não se põe durante meses a fio. Esticado na hora certa dentro de mim, o sol da meia-noite se ergue bem acima da linha do horizonte e aparece novamente.

Dentro de mim zonas, mares, cataratas, florestas, vulcões, grupos, Malásia, Polinésia e as grandes ilhas das Índias Ocidentais.”

É uma força da natureza, Walt Whitman. Mais do que inventar uma dicção literária norte-americana, ele namorou o sagrado, o sublime, a completude de tudo quanto há. Fez as pedras estremecerem, sentiu o pulsar do gelo, viu as cores da escuridão. A poesia de Walt Whitman toca no dedo de Deus.

Fernando Pessoa não conseguia ler WW de um estirão. Precisava de tempo pra não se perder no poeta:

“Nunca posso ler os teus versos a fio… Há ali sentir demais…
Atravesso os teus versos como a uma multidão aos encontrões a mim,
E cheira-me a suor, a óleos, a atividade humana e mecânica.

Nos teus versos, a certa altura não sei se leio ou se vivo,
Não sei se o meu lugar real é no mundo ou nos teus versos,
Não sei se estou aqui, de pé sobre a terra natural,

Ou de cabeça para baixo, pendurado numa espécie de estabelecimento,
No teto natural da tua inspiração de tropel,
No centro do teto da tua intensidade inacessível.”

Perto dos 60, fico mais perto da poesia. Nenhuma outra forma literária é mais intensa e concisa.

Às vésperas dos 60, pouca coisa me aborrece ou preocupa verdadeiramente.

Tenho em mim a compreensão da finitude. Meu copo não está quase vazio. Ele ainda tem dois dedos de mar pra eu navegar. Já não quero ir às profundezas, prefiro flutuar ao rés-da- água.

Não quero ter razão nem opinião. Pouco discordo e muito menos ainda concordo. Tiro o corpo para não me aborrecer. Deixo a arrogância passar ao largo – e rio dela e de mim, quão arrogante já fui. Não me lembro a última vez que fiquei muito brava. Nem muito triste, nem muito alegre.

Perto dos 60, trago em mim todas as idades que vivi e que deixei de viver. Sou criança nas crianças, adolescente nos adolescentes, jovem nos jovens. Sou adulta do meu tamanho, com a soma e a diminuição das vitórias e dos fracassos. Com as coisas que não resolvi ou que ficaram resolvidas pela metade. Nada se resolve por inteiro.

A caminho dos 60, já sei o quão pequenininha sou diante do Mistério, com M maiúsculo. Não sou feliz nem infeliz. Sinto o gosto do dia e o cheiro da noite. Vibro, vibro, quando compartilho a condição humana com um desconhecido. Conversas rápidas, únicas, a maioria das vezes superficiais. Na padaria, na feira, na fila. É quando me sinto parte da humanidade. Em larga escala, quando faço parte das multidões uníssonas – nas manifestações políticas da década de 1980/1990. E nas mais recentes, contra o golpe, e nas que virão, por certo virão.

Nunca imaginei que daria conta da travessia da vida — – ela que, muito cedo, me assustou demasiadamente.

Chegando aos 60, tirei os entulhos do meu barquinho e sigo remando rio acima, rio abaixo, indo e voltando, voltando e indo, até o dia em que minhas águas seguirão, por conta própria, até o misterioso mar. Terá sido bom.

*Crônica publicada na revista Roteiro de junho. 

7 comentários em “Chegando aos 60

  1. Querida Ceiça, seria uma desfeita à humanidade se você não se rendesse às redes e nos mantivesse à margem de sua prosa tão inspiradora. Que bom que criou coragem. Vou acompanhar seus textos, como sempre, como uma ribeirinha esperando o saco plástico cair do navio. Beijos líquidos de Paraty.

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  2. Queria meu seu texto. Já passei, 65, o que me torna apta a confirmar que são essas as emoções, sentimentos e sentido de sair livre na vida. Vou passar na Branquinha para um tim tim. PS. Irei a pé.

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